24.2.09

A Origem do Mundo


Quando soube que a PSP tinha apreendido numa feira do livro volumes que reproduziam na capa uma imagem considerada pornográfica, confesso que me apeteceu ser mosca. Não para conseguir voar, ter olhos compostos e poder alimentar-me de excrementos e matéria em decomposição (apesar de serem talentos apetecíveis), mas pela possibilidade de assistir às apetitosas conversas que terão precedido a acção justiceira e que deverão conhecer enriquecimentos ainda mais apetitosos com as subsequentes tentativas de elaboração e justificação.

No que terá sido a sua primeira visita a uma feira do livro, um grupo de agentes policiais deslocou-se ao local e confiscou os volumes transgressores decorados com uma gravura chocante. E é realmente chocante. Pelo menos, foi essa a intenção original do pintor quando a criou em 1866. O facto de o seu potencial de choque, que já deveria ter expirado há décadas, continuar suficientemente activo para melindrar homens fardados e de barba rija torna o caso ímpar.

Que mostra a imagem afinal? É um quadro pintado por um francês (são sempre os franceses…), representando uma mulher anónima de pernas afastadas expondo o que a maior parte de nós saberá existir em tal localização. Não vou referir pormenores porque não quero estragar a surpresa a ninguém. É pornografia, pois claro! E não poderá ser exibida numa feira do livro aos olhos de frequentadores que poderão não ter a maturidade moral para compreender semelhante fenómeno anatómico. Afinal de contas, o lar natural e discreto da pornografia são os quiosques de rua, onde os olhares mais inocentes serão dissuadidos de mirar pelas expressões de censura dos políticos e futebolistas no escaparate ao lado.

Desculpa-se a PSP com as reclamações que terá recebido. Deveremos acreditar que a PSP atende a todas as reclamações que lhe chegam, por mais absurdas que sejam? Enviará agentes para confirmar se a sexagenária que contacta a esquadra em pranto tem realmente Belzebu dentro do açucareiro? Ou para averiguar o motivo do estranho aroma a açafrão proveniente do apartamento de uma família paquistanesa após alerta de um vizinho? Ou para apreender um livro reproduzindo na capa uma imagem obscena que, por acaso, é um quadro célebre não referido nas aulas de História da Arte do curso de formação da polícia?

Pensando melhor, não terá tanta piada como me parecia. É até um pouco triste pela tacanhez revelada e pela inclinação para o “parece mal” que já deveríamos ter ultrapassado há muito. Apreender um livro porque tem uma capa “obscena” num país onde a pornografia é legal e livremente vendida e consumida não faz realmente qualquer sentido. Mas o mais preocupante de tudo é pensar que, em Portugal, no ano de 2009, ainda se apreendem livros, qualquer que seja o motivo.

E nem sequer são os de José Rodrigues dos Santos.

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